4 de Julho de 2012

Behind the scenes: A woman’s touch


  Quando escrevo, muitas vezes sou obrigado a afastar-me consideravelmente daquilo que é a minha área de conhecimento emocional e sensitivo. Nunca matei ninguém, nem senti a dor de perder um filho, mas já tive de descrever tais experiências. Não tem nada de especial, é suposto um escritor usar a imaginação para preencher essas falhas. Por outro lado, também não será difícil de entender que quanto mais me afasto, maior tem de ser o esforço.

  Entre essas “viajem”, existe uma que não será tão longínqua como, por exemplo, ver o mundo pelos olhos de um sátiro narcisista e pedófilo, mas ao mesmo tempo me obriga a uma deslocação acentuada, nomeadamente, a perspectiva feminina.

  Não me iludo ao pensar que compreendo as mulheres. Compreendo algumas mulheres (ou pelo menos quero convencer-me disso), mas entender as mulheres em geral, a “womankind”, está para lá das minhas capacidades, pois existem, simplesmente, demasiadas variáveis.

  Seja como for, mesmo não as compreendendo na totalidade, continua a caber-me a responsabilidade de as representar de modo mais realista possível. Não me interessa que a personagem em questão seja uma vampira ou faça algo fisicamente impossível, o relevante é que ao lê-la as leitoras fiquem com a sensação (ou o mais parecido possível) que o conteúdo podia ter sido escrito por uma escritora. Irrelevante, para esta questão, se se identificam com a personagem, isso é outra história completamente diferente. Existem centenas de personagens masculinas nas quais não me revejo, mas posso dizer: “sim, isto foi escrito por um tipo” ou “sim, faz sentido, do ponto de vista masculino, que ele faça aquilo”. Tal responsabilidade torna-se mais acentuada quando determinado capítulo ou conto é narrado segunda a perspectiva de uma personagem feminina.

  Não é fácil, especialmente porque só uma leitora poderá dizer se o consegui ou não. É um processo de tentativa e erro, no qual tenho de procurar combinar experiências pessoais com informações que absorvo de terceiros.

4 comentários:

Liliana Lavado disse...

Percebo bem a carga de trabalhos que falas… :P
Mas acredito que quando sabemos o que queremos que uma personagem seja na história acabamos por encontrar "a voz" certa para ela :)

Vitor Frazão disse...

Depois resta saber se essa voz certa verdadeiramente o é...

Ana C. Nunes disse...

E as escritoras sentem o mesmo quando têm de escrever na perspectiva de homens.
Mas no final acho que o que mais importa é que o leitor sinta que o autor fez um esforço para entrar na pele das personagens (sejam elas de que sexo, nacionalidade ou ascendência forem) e que não foi pelo caminho fácil dos estereótipos. Muitos escritores/as caem nesse erro de usar os caminhos comuns: a loira burra, o macho musculoso e super-alpha, a rapariga sensível caixa-de-óculos, o bêbedo que vive nas ruas, etc.
Quando o/a autor/a faz isso o leitor sente-se gorado e não há nada pior que uma personagem sem personalidade.
O facto de te esforçares por melhorar, irá transparecer no papel, acredita.

Olinda P. Gil © disse...

Por isso gosto tanto de ouvir os outros...