Quando escrevo, muitas vezes sou obrigado a afastar-me consideravelmente
daquilo que é a minha área de conhecimento emocional e sensitivo. Nunca matei
ninguém, nem senti a dor de perder um filho, mas já tive de descrever tais
experiências. Não tem nada de especial, é suposto um escritor usar a imaginação
para preencher essas falhas. Por outro lado, também não será difícil de
entender que quanto mais me afasto, maior tem de ser o esforço.
Entre essas “viajem”, existe uma que não será tão longínqua como, por
exemplo, ver o mundo pelos olhos de um sátiro narcisista e pedófilo, mas ao
mesmo tempo me obriga a uma deslocação acentuada, nomeadamente, a perspectiva
feminina.
Não me iludo ao pensar que compreendo as mulheres. Compreendo algumas
mulheres (ou pelo menos quero convencer-me disso), mas entender as mulheres em
geral, a “womankind”, está para lá das minhas capacidades, pois existem,
simplesmente, demasiadas variáveis.
Seja como for, mesmo não as compreendendo na totalidade, continua a
caber-me a responsabilidade de as representar de modo mais realista possível.
Não me interessa que a personagem em questão seja uma vampira ou faça algo
fisicamente impossível, o relevante é que ao lê-la as leitoras fiquem com a
sensação (ou o mais parecido possível) que o conteúdo podia ter sido escrito
por uma escritora. Irrelevante, para esta questão, se se identificam com a personagem, isso é
outra história completamente diferente. Existem centenas de personagens
masculinas nas quais não me revejo, mas posso dizer: “sim, isto foi escrito por
um tipo” ou “sim, faz sentido, do ponto de vista masculino, que ele faça aquilo”.
Tal responsabilidade torna-se mais acentuada quando determinado capítulo ou
conto é narrado segunda a perspectiva de uma personagem feminina.
Não é fácil, especialmente porque só uma leitora poderá dizer se o consegui ou não. É um processo de tentativa e erro, no qual tenho de procurar combinar experiências pessoais com informações que absorvo de terceiros.

4 comentários:
Percebo bem a carga de trabalhos que falas… :P
Mas acredito que quando sabemos o que queremos que uma personagem seja na história acabamos por encontrar "a voz" certa para ela :)
Depois resta saber se essa voz certa verdadeiramente o é...
E as escritoras sentem o mesmo quando têm de escrever na perspectiva de homens.
Mas no final acho que o que mais importa é que o leitor sinta que o autor fez um esforço para entrar na pele das personagens (sejam elas de que sexo, nacionalidade ou ascendência forem) e que não foi pelo caminho fácil dos estereótipos. Muitos escritores/as caem nesse erro de usar os caminhos comuns: a loira burra, o macho musculoso e super-alpha, a rapariga sensível caixa-de-óculos, o bêbedo que vive nas ruas, etc.
Quando o/a autor/a faz isso o leitor sente-se gorado e não há nada pior que uma personagem sem personalidade.
O facto de te esforçares por melhorar, irá transparecer no papel, acredita.
Por isso gosto tanto de ouvir os outros...
Enviar um comentário